Acredito que há filmes que precisamos rever e outros que seria melhor não ver novamente. Pois bem, não sei há quantos anos não via
O Rei Leão, mas hoje, graças a um convite do Michel do site
Daiblog (*Muito obrigada! Dessa vez não furei!*), lá fui eu para a pré-estréia do filme em formato 3D no Pier 21, aqui em Brasília. A história do Rei Leão vocês conhecem: Simba é um leãozinho destemido que mora na savana e admira profundamente seu pai, o rei Mufasa. Só que a vida do jovem é destroçada quando seu tio malvadão, Scar, assassina o rei e faz com que o pobre Simba ache que ele é o responsável. Ele foge e é acolhido por outros dois párias, Timão e Pumba. Crescido, e depois de muita angústia, ele decide voltar para casa e retomar o que é seu.
Sem dúvida, O Rei Leão é uma das animações mais marcantes da Disney com cenários magníficos e uma preocupação em captar o movimento dos animais e traduzi-los em tela. Com o 3D, a novidade do momento, a coisa funcionou muito bem em alguns momentos, com a chuva caindo perto da audiência, folhas e aves saindo da tela, uma coisa bonita de se ver. Em outras seqüências, a coisa não deu muito certo, faltava volume e a cena fundamental da luta entre Scar e Simba ficou distorcida, a imagem meio borrada e muito diferente daquilo que eu me lembrava.
Foi bom poder relembrar de detalhes esquecidos, já que devia fazer mais de dez anos que não via Rei Leão. A cena de Simba percebendo que ele precisava crescer muito em todos os sentidos para se igualar ao seu pai, quando ele coloca sua patinha sobre a marca deixada pelo imponente Mufasa, é brilhante. Aliás, o pai de Simba é minha personagem favorita da película, com sua imponência e no original a voz de James Earl Jones. Sim, a última vez que assisti O Rei Leão foi com o som original, exatamente para apreciar essas coisas e a trilha sonora espetacular. Outra cena curiosa foi a do desfile das hienas, uma menção direta às paradas nazistas. Eu não me lembrava dela. E eu tenho certeza que é, também, referência a algum filme... ou desenho da Disney da época da guerra... Enfim, uma cena memorável.
Também foi interessante perceber como O Rei Leão bebe em uma série de mitologias e outras histórias para compor a sua. Eu não estou falando de plágio, mas de referências mesmo. Seja à peças clássicas ou ao mito do retorno do rei. Talvez, muitos dos que estão lendo essa resenha não conheçam o filme inglês
Excalibur (*e eu espero que o suposto remake não saia*), mas é o mito, muito forte na Idade Média, o do
Rei Pescador, de que a saúde da terra dependia da saúde do monarca. Quando Simba retorna para casa e derrota Scar, a terra que definhava volta à vida. É a mesma coisa em Excalibur, onde um Arthu ferido definha por anos junto com a terra. Simba não morreu, mas sua ausência, sua relutância em assumir o seu lugar, é como uma longa doença.
A sala estava cheia de crianças, algumas jovens demais para estar no cinema, ainda mais com óculos 3D. A menininha na minha frente, que mal deveria ter três anos, não somente não colocou os óculos, mas pedia que a mãe acendesse a luz. Pior é que a mãe e o pai ficaram acendendo o celular o tempo todo. Também não controlaram a entrada das pessoas e com mais de meia hora do início do filme, ainda havia gente entrando. Isso tudo e mais outras tantas coisas comprometeram a diversão, mas foi interessante observar que a cena da morte de Mufasa calou a todos. Continua sendo a cena mais poderosa do filme, a mais impressionante e, a meu ver, uma das melhores que a Disney já produziu. Terminam aí meus elogios; vamos aos problemas.
Eu realmente lembrava de uma dublagem nacional melhor para o Rei Leão, por isso, perguntei no Twitter se tinham redublado. Minha memória me traiu e achei muito abaixo do que me recordava, e, depois de ter ouvido a trilha sonora original tantas vezes (*estou escrevendo ouvindo as músicas de Rei Leão*), achei as músicas muito ruins. Meu marido, que nunca tinha assistido Rei Leão em protesto por conta do suposto plágio ao anime Kimba de Osamu Tezuka, detestou a trilha sonora e a dublagem. Obviamente, ele estava com muita má vontade, já que saiu dizendo que O Rei Leão é medíocre e absolutamente infantil. Concordo com o segundo ponto, é infantil, e isso faz com que continue se comunicando bem com o público certo, mas está longe de ser medíocre. Mas, sim, a dublagem não ajuda mesmo...
De resto, salvo por poucas cenas, algumas citadas acima, o filme me tocou muito pouco. Em 1994, achei uma obra bem mais interessante, embora O Rei Leão não figure entre meus top filmes da Disney. Vejo e revejo A Bela e a Fera e continuo tendo a mesma impressão de sempre. É infantil, poderia ser melhor, mas, ainda assim, me sinto bem satisfeita. O Rei Leão desde 1994 me incomodava por ser extremamente reacionário, como boa parte do encanto se foi, o filme se tornou muito, mas muito reacionário. E vou explicar isso.
O Rei Leão é a louvação da monarquia ou de uma ordem hierárquica na qual sangue e linhagem são muito mais importantes do que qualquer qualidade. Antes que alguém queira me lembrar o quanto Mufasa é virtuoso, deixe eu explicar. A coisa é tão bizarra, que um nada como Scar, que poderia e seria despedaçado pelas leoas ou qualquer macho que aparecesse no território, é aceito simplesmente por ser “da família real”. Se a Disney quisesse ser fiel em relação ao que acontece no Reino Animal – e o papo de Ciclo da Vida se remete a isso – teríamos mais machos no grupo e, claro, seria a força e capacidade reprodutiva que diria que fulano de tal é “o chefe”, não ter sangue do clã X. Mas ao humanizar as atitudes dos animais, tais questões como “Nala e Simba são irmãos” se perdem totalmente. Outra cena, talvez a que mais me incomodou nessa brincadeira de reis e servos, foi a em que o calau, Zazu, é obrigado por seu rei, Mufasa, a se deixar “caçar” pelo jovem Simba. Zazu era um funcionário real e se vê reduzido a brinquedo para o seu jovem amo. Pode parecer engraçado, já que Zazu é uma personagem cômica, mas é o tipo de cena que só serve para ilustrar – e acho que uma criança mais velha entenderia bem isso – que uns têm privilégios e outros, não. E que aqueles que têm privilégios podem humilhar e usar os que não têm.
A cena me deixou constrangida. Eu, se tivesse filhos, iria me obrigar a explicar que ninguém tem o direito de humilhar ninguém, muito menos por ter nascido rei. Aliás, quando as hienas falam em “não ter rei” ou Pumba e Timão louvam a liberdade, logo são reprovados. E, pelo menos nesse aspecto, até Scar recebe razão. Afinal, é preciso “ordem” e igualdade não é sinônimo de “ordem”, porque existe uma razão para tudo assentada na natureza, no ciclo da vida. Claro que, para fins dramáticos, qualquer coisa pode ser torcida para o bem da narrativa, como o caso da chefia do grupo. Mas o resultado é que ninguém tem o direito de escolha em O Rei Leão, tudo está previsto e tem que ocorrer conforme a tradição. Não é isso que Zazu diz para Simba e Nala? Eles não se casaram no final? Pois é... e ai de quem quiser fazer diferente, os vilões da história ilustram bem. Boa mensagem para as crianças, não é?
De resto, incomoda-me muito, e isso é antigo, que o vilão fosse homossexual. Scar não se reproduz e despreza as fêmeas, é extremamente afetado, falso, traiçoeiro e pérfido, ou seja, um estereótipo ambulante, carregado de vícios e de características que homens efeminados têm no senso comum. “Toda família tem um desses majestade. Na minha tem dois.”, diz Zazu em determinado momento. Só não vê quem não quer. É claro que a coisa pode ser equilibrada se pensarmos em Pumba e Timão como um casal gay, mas Scar é uma personagem muito estigmatizada e com a dublagem – seja a nossa ou a de Jeremy Irons – a coisa fica muito pesada. E as hienas todas são dubladas por atores negros, e tem cores escuras. Sinceramente? Isso sempre me incomodou e vai continuar. E, sim, antes que me esqueça, O Rei Leão não cumpre a
Bechdel Rule. Há pelo menos quatro personagens femininas com nome (Nala e sua mãe, a mãe de Simba e a hiena-chefe), ainda que só lembre o nome de uma; há conversas entre elas em umas duas ocasiões, o assunto, porém, são seus machos (Simba ou Mufasa) e nada mais. De qualquer forma, é uma marca e tanto para a máedia dos filmes americanos, duas em três.
Enfim, é isso. Assistir O Rei Leão em 3D foi muito interessante, ainda que eu não veja melhora real em relação ao original. Observar que o filme continua se comunicando bem com seu público, também foi importante. Agora, perceber que o filme se tornou muito menor aos meus olhos do que tinha sido em 1994 foi triste. O Rei Leão continua sendo um espetáculo, mas, com certeza, uma das obras mais reacionárias que a Disney já criou. E eu realmente não me lembrava do primeiro ato do rei Leão ser tão longo... Ou seja, eu não me lembrava direito do Rei Leão e deveria ter ficado assim. E que pena que não pude ficar com o ingresso... Tão bonitinho e eu nem bati foto. :P
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Saraiva. Para quem é fã e para as novas gerações, vale muito a pena.