
Ainda não li nada dos livros, mas tinha visto alguns sites que eu gosto, e que falam de filmes de época e de fantasia, elogiando os livros e falando da série que está por vir. Daí, a matéria da Época acabou me estimulando a comprar o livro. Fiz isso ontem quando passei na Saraiva para buscar o DVD da Bela e a Fera. Vamos ver se é legal. Já falei muitas vezes que não gosto de Sr. dos Anéis, nem os filmes, que assisti no cinema, nem o livro, que foi um dos poucos livros que comprei e vendi (*eu não gosto, mas muita gente gosta*), entretanto, a matéria desmente o parentesco, ainda que a influência de um Tolkien deva estar em todo material de fantasia... Se a influência for o Cornwell, que me desperta alguma má vontade (*graças a alguns fãs dele que ficavam comparando Brumas de Avalon e a saga de Arthur dele para dizer que o primeiro, “coisa de mulherzinha”, era lixo*), não vai fazer grande diferença, já que não fui além das primeiras páginas do primeiro livro sobre o Rei Arthur escrito por este autor. Enfim, vamos ver se esse Guerra dos Tronos consegue me fisgar. Se for só um desfile de meninos poderosos (*ou não*), continuo com As Brumas de Avalon, que eu consigo ler e reler sem me cansar, ainda que não consiga me empolgar com outros materiais da autora. Segue o artigo da Época.
O renovador da literatura fantástica
Alberto Cairo
Em alguns gêneros literários é impossível que um autor novo comece a fazer sucesso sem ser obrigado a enfrentar comparações com grandes autores do passado. Nos épicos de fantasia, esse papel é cumprido por J.R.R. Tolkien. Desde a publicação da primeira parte da trilogia O Senhor dos Anéis, em 1954, o escritor britânico tem gerado inúmeros imitadores de qualidade desigual, todos respeitando uma fórmula que mistura ambientes medievais, lendários objetos mágicos e criaturas como elfos e dragões. O imitador mais bem-sucedido ganha a duvidosa honra de ser chamado pelos fãs e pela crítica de “novo J.R.R. Tolkien”, até que surja um imitador melhor.
Por isso, a primeira impressão causada pelo escritor americano George R.R. Martin – ainda mais com esse R. R. – não poderia ser diferente. Lançado em 1996, seu livro A Guerra dos Tronos (Leya, 591 páginas, R$ 49,90, tradução de Jorge Candeias), primeiro volume da saga de fantasia As crônicas de gelo e fogo, foi divulgado como “o novo Senhor dos Anéis”. A idéia era conquistar o leitor conservador, que trocaria qualquer vestígio de originalidade por uma boa imitação de Tolkien.
No caso de Martin, porém, a impressão é errada. Quem espera um clone da odisséia do hobbit Frodo para destruir o anel e vencer o vilão Sauron deve procurar outra leitura. Na obra de Martin não há heróis nem vilões arquetípicos, como na obra de Tolkien. Pelo contrário: em As crônicas de gelo e fogo, o autor propõe uma redefinição da fantasia épica, aproximando-a dos romances históricos de aventura ao estilo de Bernard Cornwell (As crônicas saxônicas). A fantasia de tom histórico conquistou 7 milhões de leitores e renderá um seriado de TV no canal americano HBO, a estrear em 2011 (leia o quadro abaixo).
Redefinir padrões é uma das especialidades de Martin. Mesmo sendo um desconhecido no mercado brasileiro, o autor tem uma carreira literária longa e respeitável. Em seu primeiro romance, Dying of the light (A morte da luz, de 1977, sem tradução para o português), Martin escreveu uma aventura espacial de ritmo endiabrado e personagens memoráveis que se afastava da linguagem juvenil popularizada por filmes como Guerra nas estrelas. Outro de seus sucessos, Fevre dream (O sonho de Fevre, de 1982, também inédito no Brasil), é uma das mais originais histórias de vampiros desde o Drácula de Bram Stoker. Nesses e em outros livros de menor sucesso, Martin especializou-se em render homenagem a obras clássicas dos gêneros que escolhia, quebrando ao mesmo tempo suas convenções.
A qualidade de seus trabalhos e seu ritmo acelerado de produção despertaram o interesse da televisão. De 1983 até meados dos anos 1990, Martin deu uma pausa aos romances e assumiu um trabalho fixo de roteirista de seriados televisivos como Além da imaginação e A Bela e a Fera. Seu estilo se tornou mais direto e visual, mas nunca desleixado.
A mudança provocada pela passagem por Hollywood é evidente nas Crônicas de gelo e fogo: ao contrário de Tolkien, um sisudo professor de filologia, Martin dá mais peso à ação do que às longas descrições de ambientes que se tornaram uma marca de O Senhor dos Anéis. Sua prioridade é divertir, sem abrir mão da qualidade. A trama de A guerra dos tronos avança sem trégua, e muitos capítulos acabam em ganchos para o próximo, o que torna difícil interromper a leitura. Além disso, os pontos de vista mudam constantemente. Há mais de 100 personagens – um elenco de fazer inveja às novelas de televisão –, o narrador mostra o ponto de vista de oito deles. Para não se perder, o leitor pode recorrer ao detalhado apêndice nas páginas finais do volume, que lista todos os personagens de acordo com as casas de que fazem parte.
Em A guerra dos tronos, Martin usa a multidão de personagens para descrever um conflito épico entre famílias. O livro narra a decadência do continente imaginário Westeros, cujo domínio é disputado por diversos clãs da nobreza. A guerra dos tronos começa quando Eddard, da tradicional família Stark, é chamado pelo rei Robert Baratheon para ser seu principal conselheiro, o que desencadeia a inveja de grupos rivais. A partir desse momento, as lutas encarniçadas dentro da alta sociedade se transformam no principal motor de uma aventura na qual se sucedem traições, assassinatos e filhos bastardos. Há também conspirações complexas vagamente inspiradas em fatos históricos: Martin não esconde ter usado como fonte a Guerra das Rosas, um conflito dinástico entre as famílias York e Lancaster pelo trono da Inglaterra do século XV.
Como os bons romances históricos, a fantasia de Martin foge do maniqueísmo. Seus personagens são imprevisíveis: os que parecem bonzinhos no início da saga mostram seu lado ruim ao longo da história, enquanto os vilões, embora sejam majoritariamente impiedosos, conseguem despertar no leitor uma desconfortável empatia. As forças que os movem são as mesmas que motivam a humanidade desde o começo dos tempos: ambição, sede de poder, luxúria e medo.
Diante da exacerbação dos elementos humanos, os fantásticos ficam em segundo plano. Há feiticeiros, dragões e outras criaturas mágicas em Westeros, mas Martin lhes dá um papel inesperado: em A guerra dos tronos, eles ficam à margem dos conflitos familiares, que assumem um papel central na narrativa. Nos livros seguintes, gradualmente, a fantasia ganha mais espaço, embora a intriga familiar nunca perca sua importância. A abordagem faz com que os personagens despertem mais empatia que os heróis de Tolkien, que são quase joguetes à mercê de poderes sobrenaturais. Essa característica já influenciou uma nova geração de autores de fantasia, como o canadense Steven Erikson e o irlandês Paul Kearney. A consagração definitiva veio quando eles foram saudados como “os novos George R.R. Martin”.
Alberto Cairo
Em alguns gêneros literários é impossível que um autor novo comece a fazer sucesso sem ser obrigado a enfrentar comparações com grandes autores do passado. Nos épicos de fantasia, esse papel é cumprido por J.R.R. Tolkien. Desde a publicação da primeira parte da trilogia O Senhor dos Anéis, em 1954, o escritor britânico tem gerado inúmeros imitadores de qualidade desigual, todos respeitando uma fórmula que mistura ambientes medievais, lendários objetos mágicos e criaturas como elfos e dragões. O imitador mais bem-sucedido ganha a duvidosa honra de ser chamado pelos fãs e pela crítica de “novo J.R.R. Tolkien”, até que surja um imitador melhor.
Por isso, a primeira impressão causada pelo escritor americano George R.R. Martin – ainda mais com esse R. R. – não poderia ser diferente. Lançado em 1996, seu livro A Guerra dos Tronos (Leya, 591 páginas, R$ 49,90, tradução de Jorge Candeias), primeiro volume da saga de fantasia As crônicas de gelo e fogo, foi divulgado como “o novo Senhor dos Anéis”. A idéia era conquistar o leitor conservador, que trocaria qualquer vestígio de originalidade por uma boa imitação de Tolkien.
No caso de Martin, porém, a impressão é errada. Quem espera um clone da odisséia do hobbit Frodo para destruir o anel e vencer o vilão Sauron deve procurar outra leitura. Na obra de Martin não há heróis nem vilões arquetípicos, como na obra de Tolkien. Pelo contrário: em As crônicas de gelo e fogo, o autor propõe uma redefinição da fantasia épica, aproximando-a dos romances históricos de aventura ao estilo de Bernard Cornwell (As crônicas saxônicas). A fantasia de tom histórico conquistou 7 milhões de leitores e renderá um seriado de TV no canal americano HBO, a estrear em 2011 (leia o quadro abaixo).
Redefinir padrões é uma das especialidades de Martin. Mesmo sendo um desconhecido no mercado brasileiro, o autor tem uma carreira literária longa e respeitável. Em seu primeiro romance, Dying of the light (A morte da luz, de 1977, sem tradução para o português), Martin escreveu uma aventura espacial de ritmo endiabrado e personagens memoráveis que se afastava da linguagem juvenil popularizada por filmes como Guerra nas estrelas. Outro de seus sucessos, Fevre dream (O sonho de Fevre, de 1982, também inédito no Brasil), é uma das mais originais histórias de vampiros desde o Drácula de Bram Stoker. Nesses e em outros livros de menor sucesso, Martin especializou-se em render homenagem a obras clássicas dos gêneros que escolhia, quebrando ao mesmo tempo suas convenções.
A qualidade de seus trabalhos e seu ritmo acelerado de produção despertaram o interesse da televisão. De 1983 até meados dos anos 1990, Martin deu uma pausa aos romances e assumiu um trabalho fixo de roteirista de seriados televisivos como Além da imaginação e A Bela e a Fera. Seu estilo se tornou mais direto e visual, mas nunca desleixado.
A mudança provocada pela passagem por Hollywood é evidente nas Crônicas de gelo e fogo: ao contrário de Tolkien, um sisudo professor de filologia, Martin dá mais peso à ação do que às longas descrições de ambientes que se tornaram uma marca de O Senhor dos Anéis. Sua prioridade é divertir, sem abrir mão da qualidade. A trama de A guerra dos tronos avança sem trégua, e muitos capítulos acabam em ganchos para o próximo, o que torna difícil interromper a leitura. Além disso, os pontos de vista mudam constantemente. Há mais de 100 personagens – um elenco de fazer inveja às novelas de televisão –, o narrador mostra o ponto de vista de oito deles. Para não se perder, o leitor pode recorrer ao detalhado apêndice nas páginas finais do volume, que lista todos os personagens de acordo com as casas de que fazem parte.
Em A guerra dos tronos, Martin usa a multidão de personagens para descrever um conflito épico entre famílias. O livro narra a decadência do continente imaginário Westeros, cujo domínio é disputado por diversos clãs da nobreza. A guerra dos tronos começa quando Eddard, da tradicional família Stark, é chamado pelo rei Robert Baratheon para ser seu principal conselheiro, o que desencadeia a inveja de grupos rivais. A partir desse momento, as lutas encarniçadas dentro da alta sociedade se transformam no principal motor de uma aventura na qual se sucedem traições, assassinatos e filhos bastardos. Há também conspirações complexas vagamente inspiradas em fatos históricos: Martin não esconde ter usado como fonte a Guerra das Rosas, um conflito dinástico entre as famílias York e Lancaster pelo trono da Inglaterra do século XV.
Como os bons romances históricos, a fantasia de Martin foge do maniqueísmo. Seus personagens são imprevisíveis: os que parecem bonzinhos no início da saga mostram seu lado ruim ao longo da história, enquanto os vilões, embora sejam majoritariamente impiedosos, conseguem despertar no leitor uma desconfortável empatia. As forças que os movem são as mesmas que motivam a humanidade desde o começo dos tempos: ambição, sede de poder, luxúria e medo.
Diante da exacerbação dos elementos humanos, os fantásticos ficam em segundo plano. Há feiticeiros, dragões e outras criaturas mágicas em Westeros, mas Martin lhes dá um papel inesperado: em A guerra dos tronos, eles ficam à margem dos conflitos familiares, que assumem um papel central na narrativa. Nos livros seguintes, gradualmente, a fantasia ganha mais espaço, embora a intriga familiar nunca perca sua importância. A abordagem faz com que os personagens despertem mais empatia que os heróis de Tolkien, que são quase joguetes à mercê de poderes sobrenaturais. Essa característica já influenciou uma nova geração de autores de fantasia, como o canadense Steven Erikson e o irlandês Paul Kearney. A consagração definitiva veio quando eles foram saudados como “os novos George R.R. Martin”.






























