domingo, 21 de fevereiro de 2010

Reeditando textos antigos: “A César o que é de César!” - O Shoujo Mangá visita a Itália



Como falei esta semana do encerramento de Cantarella (カンタレラ), decidi postar a matéria que fiz para a Neotokyo tempos atrás. Aliás, não lembro bem para qual edição, mas foi antes da edição 20, agora, já está para sair a 50. Não fiz alterações no corpo do texto, só retirei uma parte que falava da Rosa de Versalhes (ベルサイユのばら). Na época, não havia scanlations traduzidas do mangá Cesare (チェーザレ) de Fuyumi Souryou, por isso, ele não está incluído. E Bronze no Tenshi (ブロンズの天使) não é mais o mangá atual de Chiho Saito, mas, sim, Ice Forest. (アイス フォレスト). Também mudei de idéia em relação ao Falco quando avancei na leitura do mangá. Ele é um bobão... mas não vou comentar isso. Para um filme sobre Alexandre VI, recomendo O Conclave. Segue a matéria.

“A César o que é de César!” - O Shoujo Mangá visita a Itália

Desde a Rosa de Versalhes, em 1974, muitos mangás para garotas têm usado a História como pano de fundo. Pode ser algo local, como a Revolução Meiji e o Shinsegumi, no recente Kaze Hikaru, pode ser o Antigo Oriente Médio como em Anatolia Story (*ver Neo Tokyo 4*), ou ainda a Rússia do século XIX, em Bronze no Tenshi. Qualquer cenário parece oferecer possibilidades para uma autora com imaginação. Assim, nos últimos tempos, a Itália Renascentista serviu de pano de fundo para dois mangás muito diferentes: Kakan no Madonna (花冠のマドンナ) de Chiho Saito, autora de Shoujo Kakumei Utena (*Neo Tokyo 5*), e Cantarella de You Higuri.

Agora uma explicação, o César do título não é o imperador – Tibério César – citado na Bíblia, mas César Bórgia, personagem histórica do Renascimento italiano e presença marcante em ambos os mangás. Vilão da primeira série e herói da segunda. Confuso? Não se levarmos em conta a sua trajetória trágica e ao mesmo tempo apaixonada.

Kakan no Madonna: Alguma História e Muita Imaginação


Kakan no Madonna que em português poderia ser traduzido como "A Madonna Coroada (*de flores*)" é um mangá composto de sete volumes originais, quatro reencadernados, e começou a ser publicado no ano de 1992 na revista Petit Flowers, seguindo até 1994. É a série longa de Chiho Saito anterior a Shoujo Kakumei Utena (少女革命ウテナ). Madonna foi mais uma incursão da autora no campo dos mangás históricos, inspirada claramente por Riyoko Ikeda e sua Rosa de Versalhes.

A própria Saito, em um dos seus free-talks (*os bate-papos que vem nos cantinhos de alguns mangás*), comenta que ao escolher o país da sua história teria evitado a França porque esta já tinha a Rosa de Versalhes, não precisando de mais nenhum mangá. A autora bem que poderia ter criado a sua história francesa, mas teria que sofrer com as comparações inevitáveis. Nada mais sábio do que procurar outro país. Saito pensou na Inglaterra, mas disse que esta era muito fria (*clima?*povo?*), em Portugal e na Espanha, mas acabou escolhendo a Itália dos Bórgia, dinastia espanhola que até hoje surpreende muita gente com a sua trajetória. Em Kakan no Madonna, Chiho Saito, também discute mais uma vez – vide Shoujo Kakumei Utena e seu primeiro mangá, A Mademoiselle e a Espada – as questões de gênero, colocando em discussão os papéis femininos e masculinos através do drama da protagonista.

A Madonna Coroada é ambientada no Renascimento italiano e conta a história de Leonora, moça burguesa, pobre, que acaba sendo dada pelo pai em casamento ao irmão do governante da cidade de Pádua. O rapaz era seu companheiro de jogos, em especial de esgrima, especialidade da moça. O casamento arranjado não era algo incomum na época e Leonora se submete à autoridade paterna. Estranho, no entanto, era um moço rico e nobre aceitar casar com uma mulher que não tivesse um grande dote. Leonora pensa, portanto, que mesmo não amando, é amada.

No dia de seu casamento, um cavalo entra em disparada na cidade, ameaçando as pessoas. Leonora retira seu véu e o atira sobre os olhos do cavalo que assim é dominado. O belo cavaleiro então a reconhece e, para espanto da moça, a chama de "Madonna Coroada". Só que o cavaleiro é reconhecido como sendo o rei de Nápoles, que foi destituído de seu trono, e vaga pela Itália tentando retomar o que é seu por direito. Inimigo de Pádua, deveria, portanto ser preso. O rapaz foge, mas deixa Leonora impressionada.

Na sua noite de núpcias, a moça descobre que não era amada e, pior, é quase violentada por seu jovem marido, fato que deveria ser mais do que comum na época. O ato, entretanto é interrompido por um dos acessores do jovem noivo, Don Popolo. O rapaz acaba deixando a noiva sozinha, sob protesto, para resolver alguns problemas urgentes. Leonora sai na ponta dos pés e se põe a escutar atrás da porta. O que descobre é que a tal "A Madonna Coroada" seria um quadro de Leonardo da Vinci, pintado 20 anos antes, quando Leonora nem era nascida. Assim, Paolo confessa que se casara com uma moça de tão baixa posição porque ela era a própria Madonna e, de acordo com antiga lenda, traria em seu corpo a chave para encontrar uma lendária espada. Quem possuísse a arma mágica seria o rei da Itália e poderia reconstruir o Império Romano. Bem, Chiho Saito não economizou na imaginação.

Leonora, assustada, acaba caindo em uma câmara secreta onde se encontrava a própria “Madonna”. Decidida a descobrir o mistério e, quem sabe conseguir a espada, ela rouba o quadro e foge. No caminho, encontra um mercador a quem oferece seus preciosos cabelos cor de prata em troca de roupas masculinas e tintura para cabelo. Vestida de homem e com cabelos curtos e negros, ela se torna Leo e parte em busca de Leonardo da Vinci, o único que teria todas as respostas.

Em sua jornada acaba reencontrando o Rei de Nápoles, Falco, que está desfalecido e faminto na beira da estrada. Graças ao seu talento com a espada, conseguem juntos escapar dos guardas enviados por seu marido, já ciente do disfarce da moça. Ambos se tornam companheiros de viagem, já que Falco também tem a intenção de encontrar Da Vinci e tentar conseguir a espada restaurando a glória de seu reino. A partir daí começam a vagar juntos pela Itália, o Rei sente uma estranha atração pelo rapaz, algo que não consegue explicar, mas seu coração pertence à moça que encontrou na cidade de Pádua, a “Madonna”. Em seu caminho encontram várias personagens como Maquiavel, Rafael, Luís XII da França, e o próprio Leonardo Da Vinci, claro, pois é ele quem revela o segredo da Madonna... Não, eu não vou contar qual o segredo e estragar a surpresa. E se o mangá aparecer aqui no Brasil, ein? O fato é que graças a ajuda de Da Vinci que Leonora começa a cumprir as profecias.

É também por conta do segredo da Madonna, que a moça conhece os ambiciosos irmãos Bórgia, César e Lucrecia, filhos do Papa. César, interessado na espada lendária que lhe concederia um poder absoluto, reconhece de cara que Leo, além de mulher, é a Madonna e a seqüestra, não sem antes humilhar Falco por sua pobreza e por não ter descoberto o segredo de "seu companheiro" de viagem. Aliás, se nosso Falco tem algum defeito é a sua ingenuidade e vai pagar caro por isso. A partir daí temos muitas idas e vindas, com César tentando eliminar Falco mais de uma vez, numa delas usando um veneno de nome “cantarella”.

O César de Chiho Saito, o antagonista da história, é uma personagem cheia de sensualidade, um grande guerreiro, inteligente e com muita presença de espírito. César é capaz de fazer qualquer coisa pelo poder, mas realmente se sente atraído por Leonora, deseja tomá-la de Falco e possuí-la a todo custo, de corpo e alma. Aliás, pobre Falco, mesmo cheio de boas qualidades, é difícil dividir o quadrinho com alguém como César Bórgia! Além da Madonna, há mais alguém com quem César se preocupa, é sua irmã e amante Lucrécia. A tendência é que mesmo que César Bórgia apronte coisas terríveis, minta, faça chantagem, torture, mate, estupre e tudo mais que for preciso para conseguir o que quer, os leitores ainda sintam alguma simpatia por ele. E Chiho Saito faz de propósito, pois constrói um vilão fascinante.

A ambientação renascentista é um convite para que a autora mostre toda a fluência e beleza de seu traço, tudo é muito lindo, e a menos que você não curta “coisas bonitinhas”, irá gostar. Fora isso, a autora também explora ao máximo as dificuldades enfrentadas por Leonora para manter a sua identidade feminina em segredo e, claro, os percalços que ela e Falco enfrentam para terminarem juntos no final. A melhor definição para Madonna é que a série é um romance histórico no estilo capa-e-espada com muitas reviravoltas.

Se há algum defeito, e como é uma obra de ficção assumida isso não é problema a meu ver, é que a autora toma muitas liberdades com os fatos e personagens históricas. Não há nada do rigor mostrado por Riyoko Ikeda na Rosa de Versalhes ou Chie Shinohara em Anatolia Story. O fundo histórico é só um fundo mesmo, pintado nas cores brilhantes que Chiho Saito escolheu. Isso irritou profundamente alguns leitores e leitoras italianas, pelo que acompanhei nos fóruns de lá. Quer um exemplo dessas “liberdades”? Saito transforma Leonora em uma espécie de Papisa! Quem já ouviu falar da lenda medieval da Papisa Joana, pode imaginar que esta é a fonte remota de sua inspiração. Nada disso, entretanto, diminue a força e a beleza de sua Madona Coroada.

Cantarella: O Doce Veneno dos Bórgia


Depois da Madonna Coroada, eu não imaginava encontrar outro mangá ambientado no Renascimento tão cedo, só que acabei me deparando com Cantarella. Já tinha visto o pessoal comentando em alguns sites italianos e decidi arriscar. A principio, fiquei com a pulga atrás da orelha, porque o material estava rotulado como “yaoi”. Sei que alguns leitores já começaram a torcer o nariz aqui, mas a questão é, Cantarella não é BL, nem yaoi, mas, sim, esta é a especialidade de sua autora, You Higuri. Daí, muita gente rotular antes de ler.

Cantarella começa com o nascimento de César Bórgia. Sua mãe ouve uma voz sinistra e é atingida por um raio. O filho nasce prematuro e ambos passam bem, mas ela sabe que há algo sinistro envolvendo o acontecimento. O encontro com o pai da criança, o Cardeal Rodrigo, deixa claro que a alma de César foi “vendida ao demônio” por ele em troca de alguma coisa. A mulher tenta matar o próprio filho e livrá-lo da maldição, mas um estranho incêndio destrói tudo, só o bebezinho sobrevive.

César vai morar no palácio dos Bórgia e passa a ser cuidado pela atual amante do pai, a gentil Vannozza Catanei. Na infância César é mostrado como um menino, inteligente e esforçado, só que seu pai só tem olhos para Juan, filho de Catanei, uma criança mimada e cruel. Já Lucrécia, a menininha mais doce do mundo, sofre com as maldades de Juan. Além disso, depois, ainda será separada da mãe, que é obrigada a se casar para abafar comentários maldosos contra o Cardeal, e de César, seu irmão querido que sempre a protege, pois, para a nova governanta das crianças, o garoto é uma má influência.

O fato é que todos que cercam os Bórgia são interesseiros, mentirosos e, não raro, tem algum motivo para buscar vingança. No primeiro volume, César escapa de várias armadilhas e tem que aprender a se virar com a espada e o punhal. Logo vem a tona o desejo do pai de que ele siga carreira na Igreja, enquanto a Juan caberia um ducado, a carreira militar e um bom casamento. César se tornou realmente arcebispo aos 17 anos, cardeal aos 22, não por direito e competência, mas por influência do pai. Mas como fica evidente no mangá (e na História), ele não tinha nascido para isso.

O futuro da personagem, sempre atormentado por vozes demoníacas, começa a se delinear quando é enviado pelo pai ao seminário e alguns inimigos mandam um jovem assassino, Michelotto, atrás dele. Michelotto, braço direito e faz tudo de César, é uma personagem fundamental na trama do mangá, pois protege o Bórgia, retirando seus inimigos do caminho sempre que preciso. Ele foi construído a partir de uma personagem real, que aparece discretamente na Madonna Coroada.

Michelotto é um adolescente e seu pai está na prisão, se não matar César, ele morre. Só que César o derrota e eles se tornam amigos, embora fique sempre no ar que Michelotto pode tentar de novo a qualquer momento. Só que, efetivamente, Cesar exerce fascínio sobre ele. E pinta um clima homoerótico entre os dois, claro, afinal, vejam bem quem é a autora da história. Só que não passa disso.

Quando Michelotto ele conhece Lucrécia fica evidente que um forte sentimento nasce entre os dois. O que a autora vai montar ou não um triângulo, vocês descobrem lendo a obra. Só mais uma coisa: é Michelotto que descobre que Alexandre VI, quando ainda era o Cardeal, vendeu a alma do filho ao demônio em troca de poder, muito poder. Assim, nosso César é uma espécie de "Chonchu" (*Lembram do manhwa da Conrad?*), o pai não o quer por perto e, ao mesmo tempo, não poder se livrar dele, muito menos matá-lo.

O que vai ser de César quando ele descobrir qual a fonte de seu tormento? Como controlar os impulsos demoníacos dentro dele? Como manter alguma ponta de humanidade? O César de You Higuri é trágico, bem mais trágico que o de Chiho Saito. E sua história, embora carregada de fantasia, é muito mais pesada, realista, cruel, sem muitos floreios. A arte é linda, mas não tira o impacto do roteiro bem amarrado. Outra coisa a ser ressaltada é que a autora lança um olhar gentil e complacente sobre os dois Bórgia. Se César e Lucrecia pecam, se cometem violências, é porque tudo conspira contra eles e, claro, aqueles que os cercam são sempre piores, mais vis, mais desprezíveis.

Como não há personagens fictícios no centro da ação não é spoiler dizer que o final das protagonistas não será feliz. Basta fazer uma busca em uma boa enciclopédia para comprovar que possuído ou não, César foi muito mais um agente de guerra e destruição do que de paz; já sua irmã, Lucrecia, foi joguete nas mãos da família, de casamento em casamento, até morrer quase tão jovem quanto o irmão. Os Bórgia tiveram muito poder, mas ele foi curto, e até certo ponto, amargo.

Cantarella já conta com 10 tomos encadernados e continua, apesar de nenhum volume ter sido lançado desde junho de 2005 (*Estou escrevendo em setembro de 2006*). Ele sai na revista mensal Princess Gold, a mesma de Eroica, e começou a ser publicado em 2001. Só para constar, “cantarella” era o nome do veneno usado pelos Bórgia para eliminar seus oponentes. A receita se perdeu, mas o que se dizia na época é que a “cantarella” tinha um doce sabor, era inebriante e, claro, fatal. O veneno sempre foi visto pelos “nobres” como um recurso covarde, “arma de mulher”. Mas se é possível fazer a coisa sem grande alarde, porque arrumar uma grande encrenca e derramar sangue? Afinal, “os fins justificam os meios”.

Por que não no Brasil?

Tanto Kakan no Madonna quando Cantarella são mangás excelentes. Eles ilustram bem a diversidade do shoujo mangá e a possibilidade de tratar as mesmas personagens de forma diferenciada, visando mais ou menos o mesmo público e faixa etária. Ambos têm romance, ação, fantasia, violência, um pouco de magia e humor, tudo isso com uma arte magnífica. E Kakan no Madonna tem em Leonardo da Vinci uma das suas personagens centrais. Quer coisa mais na moda do que ele? Então, por que, não? As duas séries ainda fariam muita gente correr atrás de bons livros de História dos Bórgia e do Renascimento, de filmes, quadrinhos e romances sobre a época. Afinal, não foram as japonesas as primeiras a se interessar pela família Bórgia. Você sabia que a Conrad lançou recentemente aqui no Brasil dois volumes de quadrinhos sobre César, Lucrécia e o Papa de autoria de Alejandro Jodorowsky? Você pode até comparar a forma como autores de nacionalidades diferentes e escolas diferentes trabalham o tema. Pois é, será que alguma editora se interessa por algum desses mangás?

You Higuri

You Higuri, é uma autora especializada em mangás yaoi/BL. Nascida em Osaka, formada em design, ela já fez ilustrações de games, character design de anime, e mangás, muitos mangás. É uma das artistas de shoujo mangá da atualidade com o traço mais elaborado e bonito, e é possível ver o seu aperfeiçoamento comparando suas obras antigas e as mais recentes. São seus o famoso Seimaden; o insano e simpático Gakuen Heaven que foi recém transformado em série de tv; o mangá de época, Ludwig II. Esse, sim, bem explícito no conteúdo homoerótico, mas a autora nem precisou inventar muita coisa, já que a personagem histórica, primo da famosa Sissy, imperatriz da Áustria, era realmente homossexual e teve uma vida atormentada e uma morte trágica.

Cantarella é sua obra mais bem sucedida e está sendo publicada na França, na Alemanha e nos EUA. Mesmo sem concluir a história do atormentado César Bórgia, ela é responsável pela arte de Crown, que tem roteiro do veterano Shinji Wada, autor de Sukeban Deka e um dos poucos homens que ainda produz shoujo mangá; e publicou Tenshi no Hutsugi - Ave Maria na revista Gold.

Leonora, uma pré-Utena?


Leonora, a protagonista de Kakan no Madonna, tem que assumir uma dupla identidade. Corajosa, inconformada com os papéis impostos às mulheres, boa espadachim, Leonora é mais uma das heroínas de Chiho Saito e se aproxima, por suas características, de Utena, Oscar, e, principalmente, de Sarasa (*Neo Tokyo 9*), pois todas mantêm alguma forma de dupla identidade para poderem cumprir sua missão. No decorrer da história, irá descobrir que o segredo da Madonna pode mudar a história de toda a Cristandade e ficará dividida entre dois homens: o honrado rei de Nápoles, Falco, e César Borgia, belo e cruel filho do Papa, que usa de todos os truques sujos para possuir o segredo da Madonna e a própria Leonora.

Uma Família de Má Fama

Os Bórgia eram uma família de origem espanhola que, em um momento de intensa agitação política, cultural e religiosa, conseguiu ter muita influência na corte papal, elegendo dois papas, conseguindo para si vários cargos, privilégios e terras, além do direito de quebrar todas as leis e regulamentos que fossem obstáculo. Um dos papas Bórgia, Alexandre VI, teve várias amantes e filhos, reconhecendo todos eles e praticando um nepotismo sem limites. Com uma de suas amantes, Vannozza Catanei, Alexandre VI, na época cardeal e sobrinho do Papa Calixto III, teve cerca de dez filhos reconhecidos, entre eles Cesar (1475-1507), Lucrezia (1480-1519) e Juan, personagens de Cantarella. Sobre os Bórgia os contemporâneos dizem o pior: eram assassinos, chantagistas, conspiradores e incestuosos (*Cesar + Lucrezia, Alexandre VI + Lucrezia e outras possibilidades*). Enfim, sendo tudo verdade, ou parte invenção daqueles que derrotaram os Bórgia, o fato é que normalmente essa família é usada como material por quem deseja criticar a Igreja Católica, esquecendo muitas vezes de analisar todo o contexto e atores envolvidos nos acontecimentos.

César Bórgia


O que torna esta personagem tão fascinante? O que fez com que duas autoras de mangá o escolhessem como personagem central de suas tramas? Bom, talvez sentimentos semelhantes aos que Maquiavel nutria por ele, afinal, acredita-se que foi em honra de César Bórgia que a obra-prima “O Príncipe” foi escrito. Se César se qualificava como o Príncipe perfeito e engenhoso descrito por Machiavel, nunca vamos saber, afinal, com o poder que os Bórgia possuíam, melhor desconfiar das fontes, as que falam mal e as que elogiam. Seus contemporâneos o descreviam como um homem belo, inteligente, ousado, grande cavaleiro, capaz de crueldades extremas, diplomata se necessário, líder competente, mais temido do que amado. Uma dessas vilanias foi bem explorada por You Higuri e é o assassinato do próprio irmão, Juan, que libertou César das obrigações eclesiásticas.

César, Duque de Valentinois, e da Romanha, Príncipe de Andria e de Venafro, Conde de Dyois, Senhor de Piombino, Camerino e Urbino, Gonfalonier e Capitão-Geral da Santa Madre Igreja, se meteu em todas os grandes conflitos que abalaram a Itália de seu tempo. Aliás, o país não existia e era na época uma colcha de retalhos, desunida e constantemente imersa em guerras movidas pela rivalidade entre as cidades, pelos interesses dos grandes senhores nobres, do Papado, do Sacro Império e até do Rei da França. Foi em uma dessas guerras que perdeu sua vida com pouco mais de 30 anos. Nada mais justo, afinal, nada alimenta mais a imaginação do que alguém que tem uma carreira meteórica e cheia de sucessos, não sobra tempo para fracassos, envelhecimento e esquecimento.

Koi Monogatari

Chiho Saito vai voltar a falar do casal, César e Lucrecia, na sua série de oneshots, chamada Koi Monogatari (恋物語), Histórias de Amor. São vários volumes com histórias autoconclusivas, na verdade, mangás curtos da autora que saem como uma coleção, há desde coisas dos anos 80, até material bem recente. O volume de César e Lucrecia é o número 10. A série Koi Monogatari está saindo na Itália, onde Chiho Saito tem muitas obras publicadas. Para quem não sabe, Chiho Saito tem uma produção enorme. Alguns mangás mais longos, como Kakan no Madonna, Kanon e Waltz wa shiroi dress de, e muita coisa em um volume. Sua obra longa mais recente é Bronze no Tenshi que narra a história do poeta russo Alexander Pushkin.

Papisa Joana

A lenda da Papisa Joana, que parece ter inspirado Chiho Saito na composição da trajetória de Leonora, apareceu por escrito no século XIII, mas ela teria vivido no século IX, talvez antes. Embora muita gente tenha considerado a história verídica no decorrer da História, trata-se de uma sátira com o objetivo de criticar o papado em um momento no qual Roma tentava impor o seu poder no Ocidente e até no Oriente.

De acordo com a história, Joana teria sido uma moça vinda do Império Bizantino, talvez da Grécia, e que se vestia com roupas masculinas para que pudesse circular com segurança e estudar. Passando por homem, se destacou por sua inteligência e adquiriu grandes conhecimentos em filosofia e teologia. Depois de vagar pela Europa – coisa comum antes das universidades, já que quem queria estudar deveria ir até os mestres que estavam dispersos – Joana chega a Roma. Lá, é examinada pelos clérigos melhor formados e todos a consideram brilhante. Com a morte de Leão IV, foi declarada João VIII.

Para apimentar a história e fechar a crítica à “depravação” da Igreja, Joana tem casos com vários homens e fica grávida. Esconde seu estado por muito tempo, mas acaba entrando em trabalho de parto durante uma procissão. Como há várias versões, em umas ela morreu de parto e seu filho foi assassinado em seguida, em outras foi apedrejada pela multidão. Isso quando não se acrescenta que os eclesiásticos gritaram “Milagre! Milagre!”, quando um “homem” deu a luz.

Dois Césares Muito Semelhantes

Os Césares de Higuri e de Saito são muito parecidos. Colocadas as imagens lado a lado, e descartadas as diferenças de estilo da arte das autoras, temos uma personagem de traços semelhantes. Morenos, cabelos negros semi-longos, olhos escuros, bonitos superando de longe a maioria das outras personagens. É um perfil muito recorrente dentro das personagens idealizadas em romances femininos, só que César não se qualifica como herói, nem vai encontrar a redenção nos braços da mocinha. Aliás, Chiho Saito geralmente faz personagens masculinas fortes, sensuais e ambíguas com cabelos escuros, vide o caso de Akio de Shoujo Kakumei Utena. De qualquer forma, são coincidências interessantes. Higuri se inspirou em Saito? Será que ambas se inspiraram nos retratos de época de César Bórgia? Será que ambas se inspiraram em romances femininos tipo Harlequin? Você decide!

O Príncipe

Obra maior de Maquiavel é um manual para aqueles que desejam conquistar e manter o poder, sendo que o objetivo disso, claro, seria promover o bem comum (!). O “espelho do príncipe” era um tipo de literatura comum desde a Idade Média, mas Maquiavel ao invés de dizer que o Príncipe precisa ser bom e virtuoso, deixa claro que ele até pode parecer ser, mas que para manter o poder, o buraco é mais embaixo... Se precisasse optar por ser temido ou amado pelo povo, a primeira opção seria a correta. Muitos crêem que O Príncipe seria César Bórgia, que é citado e elogiado por Maquiavel, só que sua morte prematura em batalha, fez com que a obra fosse dedicada a outro, Lourenço de Médici. O livro foi escrito por volta de 1513, mas só foi publicado em 1532. Foi banido pela Igreja por sua amoralidade e colocado na lista dos livros proibidos, o Index.

2 pessoas comentaram:

Oi, Valéria, tudo bem? Acabei de ler o seu post aqui e a primeira coisa que eu fiz foi correr atrás do Kakan no Madonna. Felizmente achei num dos sites onde eu leio mangás online (o Manga Fox, onde eu li Peach Girl), mas ele está incompleto. Vc sabe se dá pra conseguí-lo em algum outro lugar?

Agradeço desde já.

Gabriela, é isso mesmo. Que eu saiba, ninguém concluiu as scanlations. Certas mangá-kas recebem muita atenção dos fãs, já outras...

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