A amiga Sett me perguntou uns quatro ou cinco dias atrás se eu já tinha visto o Almanaque Shoujo Mangá e se eu mesma não gostaria de escrever algum livro sobre Shoujo. "Não "para a primeira pergunta, e fui me informar sobre o material na
página da Escala, aliás, é possível ver o índice completo lá. Para a segunda pergunta é “sim”, já pensei sobre isso, tenho projetos, mas falta-me tempo e disciplina. Talvez mais a segunda que o primeiro.
Pois bem, ontem procurei na banca o tal livro, não achei. Hoje, saindo do trabalho, vi que estava lá e fui olhar o preço. Custou R$20,00, nada mal, pois se o material fosse mais caro, não compraria. A imagem da capa não está creditada, mas acredito que não é de um shoujo mangá. Talvez seja de algum doujinshi, mas não tenho certeza. A autoria é coletiva, com uma só mulher no grupo: Eloyr Pacheco, Gustavo Zolinger Zanin, Humberto Yashima, Lucas Tanaka, Franco de Rosa e Priscilla Murakami. Há um mini-currículo de cada um deles e dela na orelha final do livro. “O Poder da Sedução Feminina” não é um bom subtítulo, aliás, o título também está errado e vou explicar os motivos.
Se eu comprei o livro agora, quarenta minutos atrás, talvez um pouquinho mais, não li ainda. Farei comentários superficiais somente, já que só passei vista d’olhos em tudo. O livro tem seus pontos positivos, pois traz entrevistas com gente envolvida com a publicação de mangás no Brasil, particularmente editores das duas grandes, a Panini e a JBC. Há um capítulo interessante intitulado “As Brasileiras na Trilha do Mangá” e é bem preciso, pois fala “do mangá” e, não, do “shoujo mangá”.
O capítulo “As 10 Maiores Desenhistas Japonesas da Atualidade” também está OK. Posso não concordar com a lista, por exemplo, hoje, nos dias atuais, Riyoko Ikeda não é uma das maiores desenhistas de shoujo, ainda que eu seja grande fã de sua obra, e Masami Tsuda de Karekano nunca foi e, parodiando o Capitão Nascimento
“(...) Nem nunca será!”, mas até aí, sem crise. Eles não dizem que Rumiko Takahasi ou Hiromu Arakawa desenham shoujo, isso ajudou a marcar pontos favoráveis.
A qualidade dos artigos não posso confirmar, mas por alto vi que citam nomes e obras importantes, acredito que devam estar no mínimo aceitáveis. Como são textos longos, terei que ler depois e comentar. Estou sem tempo agora. Mas digo logo que o melhor capítulo de livro sobre shoujo mangá que li é de Paul Gravett no livro Mangá, que recomendo para todos e todas.
Vamos aos problemas e são muitos. Primeiro, as imagens. A da capa, suspeito não ser shoujo. No capítulo sobre cosplays, somente imagens de cosplays de shounen mangá. Aliás, abrem vários capítulos com personagens de Naruto e Full Metal Alchemist. Listam, também, mangás harém, voltados para o público otaku masculino como shoujo. Aliás, alguns deles, não raro os com o traço mais bonitinho, são derivados de eroges, jogos eróticos. Ter garotas bonitas e romance não torna um material shoujo, daí, o anúncio de “A Mais Completa Obra do Gênero em Português” vira propaganda enganosa. Peguem o Paul Gravett, esta, sim, a mais completa obra sobre mangá em geral nos nosso mercado.
E a coisa vai se tornando pior, Chobits e XXXHolic são listados como shoujo. (*Nada que eu não esperasse*) Sei que uma das integrantes da CLAMP (*uma só*) disse que o anime de XXXHolic era shoujo, mas ambos os mangás saem em revista seinen. E Chobits é o típico material voltado para garotos, ainda que a CLAMP venda para qualquer público. Mas daí, seria o mesmo que dizer que Naruto é shoujo, porque muitas meninas curtem. O livro presta um desserviço, e já sei que vai estimular mutia gente a sair falando bobagem pelos fóruns da vida.
Falando nisso, o capítulo mais problemático é “Os Meninos Mais Bonitinhos dos Shoujo Mangá”. Veja bem,
“dos shoujo mangá”! O que o Kenshin, os garotos de Naruto, de Full Metal de Death Note estão fazendo lá? O livro, na verdade, não é sobre shoujo, é sobre mangás que agradam as meninas. Bastaria tirar “shoujo” deste capítulo em questão e ficaria tudo OK, mas não tiram. Nos 50 animes shoujo, vários são shounen ou seinen; nos “100 maiores mangás shoujo de todos os tempos”, além de listarem tudo o que saiu no Brasil, e sair por aqui não torna Princess Princess, por exemplo, um dos maiores shoujo da história, colocam os já citados Chobits e XXXHolic.
Se você acha que os prós equilibram os contras, compre o material. A impressão, o papel, a encadernação, são bons e valem os 20 reais. Eu comprei, porque era material obrigatório para mim, as pessoas já tinham começado a perguntar minha opinião. amando ou odiando, teria que trazer para casa ou explicar meus motivos para não fazer isso. Mas não se enganem, não é uma obra sobre shoujo mangá. É uma obra mista que arrola material do agrado das garotas como se fosse (*sempre*) shoujo mangá.
Fora isso, é um livro que reproduz alguns erros grosseiros, como associar CLAMP, romance, meninas bonitinhas, garotos bonitinhos e bishoujo mangá e anime ao gênero de mangá voltado para o público feminino. Faltou pesquisa, ou faltou bom senso, não sei bem. Como não tem bibliografia, eu acho que faltou creditar quem era de direito, seja para os acertos, seja para os erros. E quando ler os artigos, é provável que eu saiba exatamente de aonde vieram algumas informações.