Normalmente não comento aqui (*mas está faltando notícia*), mas eu estudo as franciscanas, já li e falei tanto de Clara e Francisco de Assis que às vezes acho que são meus coleguinhas. Como vai acontecer uma
semana de estudos medievais na UnB, o tema é longa duração, e me vejo obrigada a participar, decidi falar sobre as representações de Clara de Assis no cinema, como a santa medieval é apropriada e apresentada. Tenho na minha coleção pessoal quatro filmes sobre Francisco de Assis, sim, porque são sobre ele e não sobre Clara:
1.
Francesco, Giullare di Dio (1950) do Roberto Rosselini – Acho de longe a versão mais bonita da vida de Francisco de Assis, muito fiel às fontes, com belíssima fotografia, uma ambientação naturalista (*Idade Média suja*), e interpretações emocionantes. Quer dizer, salvo Clara de Assis que parece uma santa no altar. Um ícone mesmo, branca, fria, distante.
2.
Francis of Assisi (1961) do Michael Curtiz – Típico filmão biografia hollywoodiano, feito no momento em que Kennedy tinha sido eleito e era preciso mostrar para o americano médio que os católicos poderiam ser gente boa também. É da mesma leva que nos deu El Cid e O Homem que não Vendeu a sua Alma. Idade Média limpa, baseado em romance, acompanha Francisco nas Cruzadas (*coisa que os outros filmes não fazem ou só citam de passagem*), tem uma Clara (Dolores Hart) muito bonita (*parece uma pin up*) e muito ativa, também. O filme foge das fontes, inventa muita coisa, mas tem uma Clara de Assis muito legal. Detalhe é que a atriz terminou
virando freira pouco depois de fazer o filme. Para quem acredita a conversão foi fruto das leituras intensas que ela fez para conhecer mais a personagem.
3.
Fratello Sole, Sorella Luna (1972) do Franco Zeffirelli – De todos os filmes sobre Francisco e Clara, porque ela está no título e na capa, acho o mais chatinho. Tudo é tão fofo, tão bonito, tão flower Power que me parece a versão Barbie da vida de Francisco de Assis. Gosto do Franco Zeffirelli, ou melhor, de alguns filmes dele, mas Irmão Sol, Irmã Lua não consegue me convencer e cativar.
4.
Francesco (1989) de Liliana Cavani – Esse foi o que eu mais assisti, porque a gente costumava discutir na época da graduação, exibir nas semanas de Idade Média no cinema, e eu geralmente passo para meus alunos na faculdade. Adoro o filme, realista, denunciando as injustiças sociais, com uma Idade Média verossímil, interpretações marcantes e uma Clara próxima daquilo que eu imagino ao ler as fontes, ainda que forcem um pouco ao colocá-la interagindo com os frades. Liliana Cavani também se preocupa em mostrar a angústia espiritual de Francisco. Meus alunos de teologia amam, especialmente a seqüência longuíssima em que Francisco quer ouvir a voz de Deus enquanto escreve a sua regra. Detalhe é que Francisco de Assis foi interpretado – e muito bem – pelo Mickey Rourke, e houve reações insólitas em algumas exibições por causa disso. E Clara é Helena Bonham Carter, quando ela era ótima, não agora quando faz umas interpretações esquisitas como a Bellatrix Lestrange (*a personagem nos livros é muito diferente daquilo que ela faz... muito!*) ou
Ana Bolena.
Enfim, mas eu vi alguns meses atrás que a Paulinas tinha lançado um filme chamado
Chiara e Francesco. Descobri que é uma série de TV de 2007, portanto bem nova, feita para a TV italiana. Resisti, tentei baixar pela net para ver se prestava, mas não consegui. Daí, mordida de curiosidade, apesar da capinha não ajudar, fui atrás do filme. Como errei o endereço da loja (*todas as livrarias religiosas importantes de Brasília – CPAD, Paulinas, Paulus – parecem se concentrar no mesmo lugar. É típico daqui. Só a Vozes escapa.*), acabei indo parar na Paulus e descobri outro filme sobre Francisco, também feito para a TV italiana, e com um protagonsita bonitão. A capa moderninha com uma foto que parecia que Francisco de Assis estava surfando ou fazendo snow board. Vamos ver se consigo assistir isso depois.
Detectado o erro, achei a Paulinas. Acabei comprando o DVD e levando outro sobre Clara de Assis que estava na promoção. Assisti o de Clara e me arrependi de ter comprado. A produção foi feita ou bancada pelas freiras de São Damião (*o primeiro mosteiro das franciscanas*) e filmado lá. O grande mérito é usar como fonte o processo de canonização. Obviamente, nenhum dos momentos polêmicos está lá. Mas é um filme religioso, com tudo muito posado, estático, elogiando a santidade de Clara do início ao fim, sem angústias, sem grandes conflitos, bem artificial até. E, fiquei pasma, porque vem sem o áudio original italiano ou legendas. E a dublagem é daquelas ruins. Aliás, dublagem brasileira ruim virou quase regra. Mas está na coleção, pode me servir para alguma coisa.
Mas falei, falei, para chegar aqui: Clara e Francisco. Não é que o filme é interessante? É novela e os italianos fazem isso bem, com muita invenção dramática (*mas tudo até agora bem válido*), o tio da Clara promovido à vilão, uma Idade Média não tão suja quanto deveria. Mas o filme mantém com os olhos firmes nas fontes, sem cair na exaltação da santidade desde o ventre. Tanto Clara, quanto Francisco, aliás, mais ele do que ela (SEMPRE) são bem humanos e, por isso mesmo, simpáticos. Não é um Francesco, não é um Giullare di Dio, mas está bom, ou, pelo menos, o primeiro 1/3 de filme foi. Não colocaram a doença de Francisco, ainda não apareceu (*e acho que não vai mesmo*) a irmã caçula de Clara, Beatriz, mas está tudo muito interessante. E o pai e a mãe de Francisco são dois atores ótimos.
Agora o problema. Escolheram para Clara e Francisco um parzinho tão bonito (*o tal
Ettore Bassi é mais que bonito, lembra os jogadores da seleção italiana da copa de 1990 que meus colegas do primeiro ano vendiam por preços exorbitantes para as meninas tietes*) que hipnotiza quem assiste e colocaram umas situações tão românticas que fica difícil não imaginar que os dois estejam apaixonados um pelo outro. Eu particularmente não consigo imaginar Clara e Francisco como par romântico, vejo uma amizade e um companheirismo imenso, duas pessoas unidas por um mesmo ideal, serem pobres como Cristo foi pobre em um momento de intensa espiritualidade. Agora, qualquer um que coloque os olhos no par e nas cenas (*até agora*) de Clara e Francisco fica torcendo pelo primeiro beijo. O ar fica carregado de tensão, aquela mesma sensação dos filmes indianos, eu diria. E mais, o primeiro encontro dos dois foi digno de romance Harlequin, com uma Clara menina encontrando, no calor da batalha, um Francisco cavaleiro muito bonito e gentil.
Enfim, escrevi um monte de bobagem, porque não tenho o que postar no blog hoje. E, também, porque precisava comentar. Coloquei o trailer de Clara e Francisco aí no post. Confirmem se não é um Francisco de Assis bonito demais para ser verdade. Aliás, acho que boa parte da energia para produzir esse post veio exatamente da forte impressão que esse sujeito me causou.