
Em 14 de janeiro, por causa desse post aqui, a Laís me enviou o seguinte e-mail (*coloquei o print aí em cima*): Olah, Valéria
Eu tentei postar esse texto nos comentários, mas nãos sei porque não estou conseguindo, então aí vai:
realmente esse é um dos aspectos das HQs americanas que fez com que eu só me interessasse por quadrinhos quando descobri os mangás. Até mesmo o desequilibrio entre o número de personagens principais masculinos e femininos nos desenhos me irritava quando criança.
houve uma polêmica recente na página do Deviantart (comunidade artística online) da revista Ação Magazine (http://acaomagazinefan.deviantart.com/) a respeito de um concurso cujo tema era: "elfas peitudas". E eu gostaria muito de saber a sua opinião sobre isso, Valéria!
Obrigada,
Oo-de-Lali
Ponto 1: Não respondi o e-mail até hoje, porque estava mal na época, porque tinha uma conexão indigente e porque fiquei guardando para, talvez, fazer um post. Eu estou na comunidade da Ação Magazine no Facebook e acompanhei a fundação do grupo no Deviantart. Trata-se de um grupo fundado e gerenciado pelos fãs da revista e não é propriamente da revista. Isso precisa ficar claro, pois ainda que os editores e autor@s da Ação Magazine possam apoiar a comunidade, eles não são responsáveis pelo que se faz lá. Acredito que só fariam alguma intervenção se ela ameaçasse de alguma forma a publicação, a imagem da revista de uma forma muito explícita. Se qualquer forma, por desencargo de consciência, quando voltei para casa (*26/01*), perguntei direto ao Alexandre sobre essa história e ele confirmou o que eu já sabia: o concurso foi promovido pelos fãs.
Ponto 2: A segunda questão é o tal concurso em si. Realmente, não vejo graça nessa coisa das "elfas peitudas", mas há quem ache. Mulheres e meninas peitudas é algo que está cada vez mais presente nos materiais japoneses e não somente para garotos, mas em alguns shoujo/josei, também. Pegue a maioria dos mangás da Kayono e confirme. Com isso, não estou dizendo que a coisa em si não seja machista, porque ela é, mas que é uma questão – essa influência norte americana, esse fetiche por seios exagerados – muito presente no material que é produzido no Japão hoje. E aqui no Brasil, também. Vide o aumento espantoso das cirurgias de implante de silicone. Isso é fruto, na maioria dos casos, de uma cerência provocada por esse bombardeio de padrões de beleza irreais e mesmo alienígenas.
Ponto 3: Agora, uma das frases do texto do concurso é um problema: "A intenção verdadeira deste concurso é homenagear, de certa forma, a mulher em geral, sua feminilidade e sensualidade. Ao mesmo tempo, conhecer novos traços, usar a criatividade, e principalmente, entrar num clima de descontração.". Essa sentença parece reduzir "a mulher em geral" (*assim, porque isso existe, uma natureza única que faz com que nós mulheres a um modelo só*) na sua "feminilidade e sensualidade" à elfas peitudas é, sim, muito ofensivo. Acredito, mesmo que é fruto muito mais da imaturidade, do bombardeio de imagens das várias mídias, do que propriamente de uma necessidade de objetificar as mulheres. Mas, claro, isso está dado, está caracterizado no próprio concurso. E quem quiser que diga que sou uma chata por não achar graça nessa brincadeira toda, eu realmente não me importo.
Ponto 4: Mas vamos a algo muito importante. Não sei, Laís, se você é leitora da Ação Magazine e isso esteja incomodando muito você, isso te toque pessoalmente. Agora, a Ação Magazine, à princípio, foi pensada para um público masculino adolescente. Eles são o alvo, não as meninas. No entanto, se eles tiverem um número grande de leitoras que participem do fórum, que escrevam cartas, que mandem roteiros para os concursos, enfim, que não tenham medo de se expressar, duvido muito que a revista não vai se tornar mais elástica e que concursos ou brincadeiras como a da "elfa peituda" deixem de ser comuns mesmo entre os fãs da revista. Um dos problemas que a gente percebe, e isso não é culpa das mulheres, mas da cultura machista que tenta nos roubar a voz, nos dizendo das mais diferentes maneiras que o que temos a dizer não é importante, que devemos nos calar, é que as leitoras das revistas, dos blogs, as ouvintes dos podcasts raramente se manifestam. Daí, fica parecendo que nós não existimos como público, nesse caso, público consumidor, que dá dinheiro para a editora. Esse para mim é o ponto chave, conhecendo algumas pessoas que estão na direção da Ação Magazine, eu tenho certeza que eles não vão desprezar vocês. Eles querem atingir as leitoras, também, mas a gente precisa dizer o que deseja ler. Percebem? Ação positiva é participar mais desses círculos e possibilitar, talvez, uma mudança de mentalidade. É isso o que eu recomendo às leitoras da Ação Magazine que se sentirem incomodadas pelo concurso. Demonstrem a insatisfação, mas sem serem injustas com a revista ou perderem de vista que se trata de uma brincadeira, ela é ofensiva, mas é preciso fazer com que os sujeitos reflitam sobre isso, porque eles mesmos devem achar que estão fazendo um elogio à "mulher em geral" e "sua feminilidade e sensualidade".
Agora uma outra coisa, por conta de uma conversa que tive com o Alexandre no Twitter para esclarecer a coisa do concurso, o @Macotim começou a me mandar uma série de mensagens expressando o que ele achava do concurso. Sei que ele não fez por mal, mas parecia até que eu tinha escrito criticando o concurso, coisa que estou fazendo somente agora. Para melhor esclarecer, seguem as mensagens que ele me enviou (*comecem a ler de baixo para cima*):



Ponto 5: Só vou comentar um Twitt desses tantos, aquele em que o @Macotim coloca o seguinte ""escrever pra esclarecer o caso", pq? qual a diferença se o concurso fosse ideia do Lancaster ou dos leitores?". Bem, primeiro, eu preciso escrever porque a Laís me perguntou e porque você veio me bombardear desnecessariamente no Twitter. Isso me deu uma clareza maior do quanto os sujeitos não conseguem perceber que reduzir mulheres a peitos e bundas é um problema, e não importa quem começou com essa história. Quanto à diferença entre o concurso ser dos fãs ou da revista, oras, se uma revista que eu acompanho reduzisse as mulheres a peitos e bundas, eu realmente ficaria aborrecida e largaria de comprá-la, além, claro, de escrever um post enorme aqui e em outros lugares falando do assunto. Resumindo, seria como virar as costas para as mulheres, admitir publicamente que essa bobagem de "elfas peitudas" é engraçado, ou seja, seria péssimo para a imagem da revista. Será que se o concurso fosse sobre "elfos pintudos" ou sobre formar casais yaoi com as personagens da revista seria engraçado da mesma forma? Duvido. Mas, sendo coisa dos fãs, é relevável, ser coisa da revista é falta de profissionalismo e visão de mercado. Mas não foi coisa da revista, então, não faz sentido fazer tempestade em copo d'água por isso.